quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Importância da Polinização


                                                                                                                                                                     Foto por Jaqueline Almeida


Muitas vezes não paramos para pensar nos serviços que a natureza nos oferece a todo o momento, como por exemplo, a polinização. Esse trabalho gratuito fornecido pelos ecossistemas naturais são os chamados “Serviços Ecossistêmicos”, que não se restringem a processos como a polinização, mas abrangem também os alimentos produzidos pela natureza, os recursos genéticos presentes no ambiente, os processos de purificação de água, regulação do clima e doenças e pragas. São esses serviços também que fornecem suporte para a produção de todos os outros, como a formação de solos, a ciclagem de nutrientes, a fotossíntese, dentre outros. Além disso, dentro dos serviços ecossistêmicos temos também os benefícios culturais, como a geração de conhecimentos, valores educativos, ecoturismo. 
No entanto, esses serviços oferecidos de graça pela natureza muitas vezes são esquecidos. Para confirmar isto basta olharmos como tratamos nossas florestas, rios e animais. Em 1997, um artigo publicado na Nature (Costanza, et al.) revelou  que o preço desses serviços naturais, se estes fossem “feitos” pelo homem, somariam um valor de 33 trilhões de dólares por ano!! O que nos leva a refletir se a destruição de matas, para a abertura de pastagens, realmente é a estratégia mais lucrativa... 
Mesmo com essas informações, as autoridades e a população de maneira geral só se da conta da importância desses serviços quando percebe a falta dele ou quando sentem no bolso o valor do mesmo, como é o caso da falta de chuvas e da polinização, respectivamente. 
A polinização é realizada por mais de 100 mil espécies de invertebrados e por cerca de 1,2 mil vertebrados, como pássaros e mamíferos. Dentro dos invertebrados, as abelhas são o grupo de maior representação, com mais de 20 mil espécies. 
Em números, um estudo realizado (Klein, et. al. 2007) revelou que 87 culturas globais de grande importância dependem da  polinização por animais, enquanto apenas 28 não dependem. Além das espécies cultivadas, existem cerca de 300 mil espécies de flores silvestres que dependem exclusivamente da polinização por insetos. O valor anual estimado deste serviço ecossistêmico na agricultura é de US$ 361 bilhões e considerando a sua necessidade para a manutenção da biodiversidade, seu valor é incalculável. 
Vem sendo observado uma redução do número de polinizadores no campo, principalmente abelhas, devido ao uso excessivo de pesticidas e agrotóxicos nas lavouras. Além dessas substancias, a destruição de florestas e a ausência de corredores ligando os fragmentos restantes, também influenciam na diminuição destas populações. Há registros também de infestação de ácaros (Varroa destructor) nas colônias de  abelhas Apis mellifera, demonstrando uma redução de aproximadamente 30% das colônias no hemisfério norte. 
A redução dos polinizadores pode comprometer a produtividade agrícola e consequentemente a segurança alimentar nas próximas décadas. Por isso, este é um assunto que necessita ser tratado com maior atenção pelas autoridades públicas, para que medidas preventivas sejam tomadas antes que seja tarde demais. 
Para quem tiver interesse sobre o assunto, sugiro que assista ao vídeo com Prof.ª. Dr.ª Vera Imperatriz Fonseca, professora no Instituto Biológico da USP, que desenvolve  estudos sobre polinizadores no Brasil:  https://www.youtube.com/watch?v=82Q50yuSGwY.



Jaqueline R. de Almeida 




Referências: 
[1] Alisson, E. (2014). Força-tarefa internacional fará diagnóstico sobre polinização no mundo. Disponível em: http://agencia.fapesp.br/forcatarefa_internacional_fara_diagnostico_sobre_polinizacao_no_mundo/19859/ 
[2] Costanza,  et al. (1997). The value of the world’s ecosystem services and natural capital. Nature. Vol. 387. Disponível em: http://www.esd.ornl.gov/benefits_conference/nature_paper.pdf 

[3] Klein,  et al.  (2007). Importance of crop pollinators in changing landscapes for world crops. Proc. R. Soc. Lond. B, Biol. Sci.v. 274, p. 303-313. 


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Comunicação e tecnologia: até onde estamos mais livres?

           Começo meu último texto sobre o fenômeno da comunicação com uma cena comum nos dias atuais: um grupo de jovens senta-se à mesa de um barzinho, todos com seus celulares à mão digitando em ritmo veloz. Uma vez ou outra trocam palavras e olhares entre si, mas no grupo o que predomina mesmo é o ato de checar o celular a cada 10 minutos e a necessidade imediata de visualizar uma notificação quando a luz de aviso se acende. A mesma tecnologia que nos aproxima das pessoas distantes nos faz escravos e nos afasta de quem estamos próximos.
            Nos meus textos anteriores vimos a importância da comunicação no seu sentido mais amplo, abrangendo desde a escala molecular e celular, chegando aos animais e, é claro, a nós humanos. No texto de hoje, no qual conto com um colaborador (veja mais no box), vamos refletir como a tecnologia inegavelmente modificou nossa comunicação e o que ela nos proporciona – tanto no lado bom quanto no lado ruim, enfocando principalmente nas redes sociais, que hoje representam a principal forma de comunicação usada por muitas pessoas.
            O progresso tecnológico revolucionou os meios de comunicação e, portanto, a forma como nos comunicamos. Se antigamente os marinheiros mandavam cartas de amor por garrafas lançadas ao mar, hoje em dia é possível enviar instantaneamente uma mensagem para qualquer pessoa do mundo estando conectado à internet. Com o desenvolvimento de computadores mais potentes, celulares do tipo “smartphone”, videochamadas e com a internet cada vez mais veloz, hoje podemos nos chamar de “aldeia global”. Nesse conceito, popularizado pelo professor canadense M. McLuhan, o tempo e o espaço não são mais barreiras à comunicação, vivemos como em uma aldeia, ou seja, conectados a todos os indivíduos do mundo. As mídias (e por consequência as tecnologias relacionadas à comunicação) são uma extensão do homem fazendo com que um novo mundo de interações esteja à disposição. 

A tecnologia nos dá liberdade ou nos faz escravos?



           O que seria então uma barreira para a comunicação em um mundo onde há tanta facilidade proporcionada pelas tecnologias? Eu diria que uma barreira é o acesso aos recursos que a possibilitam: no sentido financeiro, ou seja, ter o dinheiro para comprar os equipamentos e acessar esses meios de comunicação; e no sentido político também, como a censura à internet que é imposta pelos líderes de alguns países como a Coréia do Norte. Outra questão é o próprio livre arbítrio, ou seja, a escolha das pessoas estarem ou não nesse modo “moderno” de comunicação social. Nesse caso, podemos perceber que apesar do inegável progresso que as tecnologias nos trouxeram de multiplicar os contatos, aproximar pessoas e difundir conhecimentos, os meios de comunicação não são autossuficientes, nós portanto podemos escolher ser ou não parte disso. Mas por que alguém optaria por ficar de fora desse tipo de comunicação?
           A partir daqui nosso esforço será em apontar algumas perturbações que o convívio diário com as redes sociais, uma das formas mais usadas para comunicação, pode nos provocar. Algumas delas, você leitor, pode não ter se dado conta conscientemente, porém a forma como age/reage pode estar relacionada a sua rotina intimamente ligada às tecnologias de comunicação.
           Na interação com computadores, por exemplo, todas as respostas são quase que imediatas: uma música é rapidamente tocada, um resultado pode ser encontrado em segundos e janelas se abrem e se fecham graciosamente sob seu comando. No entanto, quando estamos nos comunicando com pessoas, as respostas normalmente não são tão rápidas; elas não respondem a comandos e muitas vezes não possuem a informação que você tanto procura. Essas diferenças existentes entre homem e máquina são naturais, porém para nosso cérebro a distinção não é tão simples, principalmente quando passamos o dia todo trabalhando com máquinas, e isso pode gerar um sentimento de ansiedade e angústia, quase como o de trabalhar em um velho computador
           E por falar em velocidade com que as coisas acontecem, quanto tempo você costuma parar para refletir sobre as notícias que aparecem em sua timeline do Facebook? Diariamente somos bombardeados por uma infinidade de notícias através das redes sociais, isso sem entrar no mérito da auto-propaganda. As notícias podem ser as mais diversas: você pode ver um menino que reencontrou a família, a fantástica cura para o câncer ou gatinhos engraçados. Mesmo que você não leia na integra, já existe um esforço mental para julgar se deseja ou não se aprofundar na reportagem e isso nos desgasta mentalmente.
           Para não encerrarmos exaltando somente o lado negativo das redes sociais vamos relembrar alguns pontos positivos que tiveram grande impacto. O primeiro deles foi a influência das redes sociais na organização de protestos da “primavera árabe” que culminou derrubando alguns ditadores. O segundo foi como as redes sociais contribuíram para o êxito de alguns movimentos ambientais, como a proteção às baleias pelo Greenpeace, que você pode ver  nesse vídeo do Ted Talks.
           Com todos esses exemplos podemos perceber como a tecnologia influencia nossa comunicação. Hoje é muito mais fácil nos comunicar realmente como uma aldeia, seja por celular, telefone, jornais ou pelas tão citadas redes sociais. Impressionante também como nossa comunicação evoluiu de pinturas rupestres até compartilhamento online de todos os tipos de informação. Mas vale a pena destacar que não devemos ser escravos desse tipo de comunicação que nos aproxima e ao mesmo tempo afasta. Vamos aproveitar os benefícios tecnológicos mas sem nos esquecer da (eu diria) “boa e velha comunicação” e que não sejamos os exemplos que citei no primeiro parágrafo. E você, o que pensa sobre o assunto? Somos realmente escravos da comunicação moderna? Estamos perdendo a habilidade de nos comunicar pessoalmente? Deixe sua opinião na nossa página! Dúvidas e sugestões também são bem-vindas!
Até mais! 

Por Nathália de Moraes - nathalia.esalq.bio@gmail.com
& Lucas M. Taniguti - lucas.biotec07@gmail.com 

Lucas é formado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL) e possui mestrado em Genética e Melhoramento de Plantas pela ESALQ/USP. Tem interesse em novas tecnologias, software livre, bioinformática e biologia.


Referências
[1] Rüdiger, F. (2011). As teorias da comunicação. Porto Alegre, Editora Penso.
[2] Choney, S. (2013, 29 de março). North Korea’s internet? What internet? For most, online access doesn’t exist. NBC News, disponível em http://www.nbcnews.com/tech/internet/north-koreas-internet-what-internet-most-online-access-doesnt-exist-f1C9143426
[3] Martino, L. M. (2001). Criador da idéia de "aldeia global" trouxe para a educação novo enfoque baseado em suas teorias sobre comunicação. Revista Educação. 46, 10. Acessado em http://www.titosena.faed.udesc.br/Arquivos/Marshall%20McLuhan.doc
[4] Munakata, S.S.T. (2011). Teorias da comunicação nos estudos de relações públicas. Porto Alegre, EdPucRS. Acesso eletrônico em http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/teoriasdacomunicacao.pdf
[5] Stress da tecnologia pode causar aumento de peso e envelhecimento precoce. (2014). Retirado de  http://www.tecmundo.com.br/saude/48642-stress-da-tecnologia-pode-causar-aumento-de-peso-e-envelhecimento-precoce.htm.
[6] Technostress. (2015). In Wikipedia. Acessado em 18 de janeiro de 2015, de http://en.wikipedia.org/wiki/Technostress.
[7] Primavera Árabe. (2015). In Wikipedia. Acessado em 18 de janeiro de 2015, de http://pt.wikipedia.org/wiki/Primavera_%C3%81rabe.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Ciência Informativa discute: Mosquitos Transgênicos

      A ideia de termos animais geneticamente modificados sendo liberados nos nossos quintais nos faz pensar em filmes de ficção científica, mas esse tipo de cenário está cada vez mais próximo de se tornar realidade. A partir de abril, mosquitos Aedes aegypti transgênicos devem ser introduzidos no bairro Cecap de Piracicaba, no interior de São Paulo. O Ministério Publico Estadual recomendou a suspensão do projeto, acatando a representação do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente de que o Aedes transgênico não tem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas a intenção da prefeitura é que o impasse seja resolvido até a data da soltura. 

fonte: Wikipedia Commons
     A utilização de transgênico é um assunto que gera muita polêmica, mas você sabe o que são transgênicos? Quais os ricos e benefícios envolvidos na utilização dos mesmos? Como diz o antigo provérbio, “conhecimento é poder” então, antes de ter uma opinião radical contra ou a favor dos transgênicos, acompanhe a matéria!
      A dengue é uma doença causada por um vírus que é transmitido pela fêmea do mosquito Aedes aegypti. Várias pesquisas têm sido realizadas para tentar encontrar uma vacina contra o vírus e, em paralelo, para tentar diminuir o número de mosquitos. Até agora, nenhuma vacina eficaz foi encontrada e, apesar dos esforços e avanços na contenção da proliferação dos mosquitos, o número de casos de dengue tem crescido rapidamente no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, em 1990, foram registrados pouco mais de 40 mil casos, enquanto em 2013 esse número subiu para quase 1 milhão e meio (para ver o números para cada estado e região, clique aqui [1].

     Para tentar combater o problema, um grupo de pesquisadores da empresa Oxitec (Inglaterra) desenvolveu uma linhagem de mosquitos machos "estéreis" usando biotecnologia. Os machos são capazes de copular com as fêmeas assim como os machos “normais” [2]. A diferença é que a prole dos machos transgênicos não se desenvolve normalmente e não passam da fase de larva. Assim, em pouco tempo a população de mosquitos diminui drasticamente [3]. Para entender como esse gene funciona e como é possível obter machos transgênicos adultos, veja o box.

     Interferir no genoma de um organismo tem o potencial de trazer consequências indesejadas. Então, para entender melhor quais os potenciais riscos de liberar mosquitos transgênicos, pesquisas têm sido feitas e reuniões têm sido organizadas desde 1991 entre pesquisadores, agências reguladoras, membros do comitê de biossegurança. A partir dessas reuniões, vários riscos potenciais foram identificados. A maioria dos riscos são insignificantes, mas alguns podem ser um problema. Abaixo estão listados alguns dos riscos. Para saber mais sobre os demais riscos, veja os artigos originais: [4, 5].

1. Aumento na transmissão da dengue: risco baixo
     Os grupos de discussão avaliaram a possibilidade dos machos começarem a picar, mas eles não possuem estrutura bucal, nem do trato digestivo nem são capazes de produzir os anti-coagulantes necessários.
    Também existe a possibilidade das fêmeas se tornarem mais agressivas ou aumentarem o número de picadas, aumentando o potencial de transmissão da dengue. Esse tipo de comportamento ainda não foi observado em laboratório, mesmo após 100 gerações.
    Como apenas as fêmeas são capazes de nos picar e apenas os machos são liberados nas áreas de infestação, o aumento inicial do número de mosquitos nas áreas onde são liberados não deve causar aumento no número de indivíduos transmissores.

2. Aumento na resistência a inseticidas: risco baixo
     O gene inserido nos machos transgênicos tem como objetivo diminuir a sobrevivência das larvas, então provavelmente eles seriam tão sucetíveis a inseticidas quanto os mosquitos selvagens. Entretanto, mais pesquisas precisam ser feitas para determinar com mais precisão a suscetibilidade a inseticidas.

3. Efeitos sobre a cadeia alimentar na natureza: risco baixo
     Como o Aedes aegypti não é uma espécie nativa do Brasil, a redução da sua população não deve causar problemas para o equilíbrio do ecossistema.

4. Aumento do número de outras espécies de mosquitos: risco médio
     É possível que as populações de outras espécies de mosquito como Aedes albopictus (também transmissor da dengue) aumente pela diminuição da competição.

5. Contaminação do solo e da água: risco baixo
     As proteínas produzidas pelo gene letal são digeridas tanto por mamíferos como por outros insetos, mas é necessário realizar estudos do potencial de contaminação do solo e da água.

6. Presença de tetraciclina no ambiente: risco baixo
    A eficácia do gene letal pode ser reduzida se houver tetraciclina no ambiente (veja o motivo no box).

7. Instabilidade do gene introduzido: risco insignificante
     É possível que o gene inserido não funcione corretamente e falhe em inviabilizar o desenvolvimento das larvas. Os estudos mostraram que o gene é estável por pelo menos 50 gerações. Como as larvas com o gene inserido morrem antes de se tornarem adultos, em teoria esse gene só é passado para uma geração.

8. Transferência do gene letal para os humanos: risco insignificante
     Existe uma remota possibilidade do gene letal ser transferido para bactérias que vivem dentro do mosquito, mas não há evidências de transferência para humanos, porque os mecanismos usados para inserir o gene nos mosquitos é desativado.

9. Potencial de transmissão do gene letal para outras espécies: risco insignificante
     O cruzamento do mosquito da dengue com outras espécies é muito rara, porque os órgãos genitais de diferentes espécies são incompatíveis. Nos raros casos de cruzamento, os híbridos formados não se desenvolvem.

10. Machos transgênicos poderiam se auto-replicar: risco insignificante
     Apesar de alguns animais serem capazes de se auto-replicar, tanto por clonagem, brotamento ou outros mecanismos, nunca foi observado nenhum desses comportamentos em insetos.

      Então, com tantos riscos, por que os mosquitos transgênicos já estão sendo liberados? De acordo com pesquisas realizadas após introduções experimentais, os benefícios para a população obtidos com esse método são muito maiores que os potenciais riscos. Veja mais detalhes aqui [6]
1. Redução da necessidade do uso de inseticidas
     Como as larvas com o gene letal morrem, o número de mosquitos adultos deve diminuir, diminuindo a necessidade de inseticidas.

2. Diminuição da ocorrência de casos de dengue
     Se o número de insetos diminui drasticamente, o vírus que causa a dengue não deve ser mais espalhado tão facilmente.

3. Diminuição dos custos
     Mesmo que o custo de produção de mosquitos transgênicos sejam altos, eles ainda são muito menores do que o custo do tratamento das pessoas com dengue. Então, o investimento total seria menor.

     Como vocês podem ver, ainda existem questões a serem melhor estudadas e existem potenciais riscos associados aos transgênicos. Por outro lado, também existem potenciais benefícios principalmente para saúde pública. O assunto ainda está longe de ser consenso e certamente muito ainda precisa ser estudado e debatido. O mais importante é conhecer os fatos para poder dar os devidos pesos aos riscos e benefícios dessas novas tecnologias.


Box. Como são feitos os mosquitos transgênicos?
O gene que causa a morte das larvas do mosquito (gene letal) é inserido nos ovos de um mosquito "normal" (selvagem). Esse gene se liga ao DNA presente nas células do embrião usando técnicas de engenharia genética [7]. Após o desenvolvimento do embrião, o gene produz uma molécula (proteína) que interfere na atuação de outros genes essenciais para o funcionamento normal das células, levando à morte da larva.

Então, como os machos transgênicos chegam à fase adulta para serem liberados nas cidades?
O gene letal pode ser desativado por um antibiótico chamado tetraciclina, que funciona como um antídoto. Então, se os cientistas colocam esse antídoto na água onde as larvas se desenvolvem, o gene letal é desativado e as larvas transgênicas podem se desenvolver normalmente.

Como os cientistas sabem se o gene letal foi realmente inserido no DNA do mosquito?
Os cientistas inserem um gene que produz uma fluorescência verde juntamente com o gene letal. Então, as larvas transgênicas brilham, quando vistas usando um microscópio especial.

Referências
[1] http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2014/julho/31/Dengue-classica-at---2013.pdf
[2] Massonnet-Bruneel, B., Corre-Catelin, N., Lacroix, R., Lees, R. S., Hoang, K. P., Nimmo, D., ... & Reiter, P. (2013). Fitness of transgenic mosquito Aedes aegypti males carrying a dominant lethal genetic system. PloS one, 8(5), e62711.
[3] Phuc, H. K., Andreasen, M. H., Burton, R. S., Vass, C., Epton, M. J., Pape, G., ... & Alphey, L. (2007). Late-acting dominant lethal genetic systems and mosquito control. BMC biology, 5(1), 11.

[4] Beech, C. J., Nagaraju, J., Vasan, S. S., Rose, R. I., Othman, R. Y., Pillai, V., & Saraswathy, T. S. (2009). Risk analysis of a hypothetical open field release of a self-limiting transgenic Aedes aegypti mosquito strain to combat dengue. Asia Pacific Journal of Molecular Biology and Biotechnology, 17(3), 99-111.
[5] Patil, P., Alam, M., Ghimire, P., Lacroix, R., Kusumawathie, P., Chowdhury, R., ... & Aung, M. (2012). Discussion on the proposed hypothetical risks in relation to open field release of a self-limiting transgenic Aedes aegypti mosquito strains to combat dengue. As. Pac. J. Mol. Biol. & Biotech, 18(2), 241-246.
[6] Morris, E. J. (2011). Open field release of a self-limiting transgenic Aedes aegypti mosquito strain to combat dengue- a structured risk-benefit analysis. Asia-Pacific Journal of Molecular Biology and Biotechnology, 19(3), 107-110.
[7] http://www.nature.com/scitable/topicpage/transposons-the-jumping-genes-518

por Patricia Sanae Sujii
sujiips@gmail.com

sexta-feira, 20 de março de 2015

Alimentação Saudável x Alimentação Sustentável: Qual a diferença?

Quem nunca ouviu falar que é preciso ter uma alimentação saudável para ter uma melhor qualidade de vida? Ou que comer gordura e fritura não faz bem para a sua saúde? Tudo isso é verdade, alimentar-se bem, de forma equilibrada, é fundamental para ter uma vida mais saudável e longínqua. Por outro lado, cada vez mais se fala em sustentabilidade, em como agir de maneira economicamente e ambientalmente viável para que possamos viver em um mundo melhor. Mas é possível juntar esses conceitos? Será que é possível tem uma alimentação ao mesmo tempo saudável e sustentável? Como isso seria?

Figura 1. Varejão 2 AMIGOS localizado na cidade de Piracicaba/SP. (Foto: Julia Savieto) 
 Vamos pensar em exemplos práticos, como um prato de comida tipicamente brasileiro com arroz, feijão, farofa, carne, salada de alface e tomate. Parece um prato saudável não? Agora vamos pensar como esse prato chega à nossa mesa, aqui em Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo. Vamos pensar no arroz, imagine que esse grão é produzido no Estado de Mato Grosso e transportado por rodovias por aproximadamente 1.200 km; e do feijão, vamos supor que ele é produzindo no Paraná e transportado por 700 km em rodovia. Vamos nos ater apenas a esses dois grãos, para ele chegar até a nossa mesa aqui em Piracicaba eles viajaram, juntos, quase 2.000km em rodovias, utilizando combustíveis fósseis e embalagem. Então você acredita que esse prato pode ser considerado sustentável?  
Não estou falando para deixarmos de comer arroz e feijão, longe disso! Estou tentando mostrar a dificuldade de conseguirmos juntar dois conceitos tão importantes como a alimentação saudável e a sustentabilidade. Aplicar esses conceitos em nossa vida é ainda mais complicado, já que é preciso encontrar um equilíbrio entre eles, sem que haja um favorecimento de um em detrimento do outro. Parece que estamos em uma encruzilhada, ou escolhemos uma alimentação mais saudável independente das consequências ambientais por traz deles, ou escolhemos uma alimentação composta de produtos com menor impacto no ambiente, independente das propriedades nutritivas deles.
Parece algo complicado, e acredito que muitos de vocês leitores nunca param para pensar nisso. Eu confesso que também não tinha parado para refletir até uns cinco meses atrás, durante uma aula de faculdade da disciplina de Sistemas de Produção ministrada pelo Prof. Dr. Carlos Armenio Khatounian da ESALQ/USP. Esse assunto realmente chamou tanta minha atenção que decidi compartilhar com vocês. As soluções apontadas pelo Prof. Armênio foram tão plausíveis que merecem ser ouvidas e repassadas. É claro que não há uma receita de bolo, que as práticas propostas por ele não são revolucionárias, mas são pequenas atitudes que podemos tomar para ter uma vida mais saudável sem prejudicar o nosso planeta.
Vamos as soluções práticas, então o que podemos fazer? As respostas são tão simples que nos fazem realmente pensar que sim, é possível ter uma alimentação saudável e sustentável. Segundo o Professor Armênio, pequenos cuidados do dia a dia já são suficientes para melhorarmos essa situação, como tentar dar preferência para o consumo de frutas e verduras da época, preferir alimentos orgânicos ou com menor quantidade insumos agrícolas e por que não começar uma horta em casa? Não é preciso muito espaço e podem ser bem simples, seria a produção de sua comida na sua própria casa, fantástico! Pensando um pouco no lado econômico, a escolha de produtos produzidos em sua região, também pode favorecer a economia local e beneficiar sua região como um todo.
Essas são apenas algumas das práticas que podemos adotar no nosso dia para ser possível ter uma boa alimentação de forma “ecologicamente correta”. Não é preciso nada muito drástico, apenas prestar um pouco mais de atenção nas suas atitudes, para benefício próprio e de toda a comunidade. O que temos a perder? Nada, só temos a ganhar uma vida melhor em um planeta melhor! Que tal tentar prestar atenção a próxima vez que for ao mercado, feira, varejão? Você vai ver que realmente faz a diferença!

Por Nathalia Brancalleão
e-mail para contato: na_brancalleao@hotmail.com


Referências bibliográficas:

Aula “Alimentação Saudável x Sustentável” ministrada pelo Prof. Dr. Carlos Armenio Khatounian do Departamento de Produção Vegetal na ESALQ/USP.

KHATOUNIAN, C. A.; Soares Jr, D. Abordagem sistêmica e pesquisa participativa na agricultura familiar: ferramentas para o desenvolvimento. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 26, p. 17-27, 2005.

SOS Mata Atlântica

No dia 19/03/15 'emprestamos' o blog Ciência Informativa para a fundação SOS Mata Atlântica por conta da semana da água!

A campanha terminou, mas a fundação ainda precisa da sua ajuda e atenção!

Acesse o link, veja outros colaboradores da campanha e aproveite para ajudar a fundação SOS Mata Altântica, para que ela possa dar continuidade aos projetos que buscam a conservação da floresta, juntamente com os mananciais e corpos da'água localizados nela!

segunda-feira, 16 de março de 2015

AIDS: da descoberta da doença à descoberta da origem

Em meados de 2002, quando eu cursava a sexta série do ensino fundamental, a minha professora de ciências mostrou para minha turma um filme que, até então, eu desconhecia. Este filme, hoje com mais de 20 anos, chama-se “Filadélfia” e foi um dos primeiros a tratar sobre a AIDS e outros temas como homofobia (você pode ver um trailer aqui). O que mais me marcou no enredo foi como a sociedade, representada na história por vários “estereótipos”, tinha medo da então pouco conhecida AIDS e, por isso, isolava os pacientes como se fosse uma forma de ajudá-los ou de entender melhor sobre a pandemia que começava. Opiniões à parte, esse é um filme muito comovente e que se você puder assista! Atualmente muita coisa mudou e evoluiu no tratamento da doença, e na forma como as pessoas lidam com os pacientes. No texto de hoje vamos entender um pouco sobre a história da AIDS e de sua descoberta, os avanços na busca por novas terapias e como, através de estudos genéticos, no ano passado os pesquisadores conseguiram traçar a genealogia do vírus HIV.
No período que foi de outubro de 1980 até maio de 1981 foram relatados em 3 diferentes hospitais de Los Angeles (EUA) cinco casos de homens, jovens, sem nenhuma relação aparente, com pneumonia causada por Pneumocystis carinii. Esse fungo vive inofensivamente nos pulmões porém, quando há uma debilitação no sistema imune, ele pode causar pneumonia. Esse foi o primeiro relato publicado conhecido do que depois foi chamada Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA) ou AIDS, em inglês. Logo após esse primeiro relato, em dezembro de 1981 um grupo de pesquisadores norte-americanos também publicou um artigo relatando um número inesperado de casos de Sarcoma de Kaposi (um tipo de câncer de pele raro) na Califórnia e em Nova York. Os casos inesperados do Sarcoma de Kaposi e da pneumonia causada por P. carinii levaram as autoridades a criar uma força-tarefa em alerta para novos casos dessas doenças; e com o passar do tempo outros casos surgiram e em países diferentes. No início, as autoridades de saúde não sabiam como se referir a doença e então, após uma reunião no ano de 1982, foi sugerido o nome Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, visto que a doença enfraquecia o sistema imune. O acrônimo AIDS ou SIDA tornou-se conhecido com o tempo.
Em 1983, depois de aproximadamente dois anos do aparecimento dos primeiros casos da doença, dois grupos de estudo distintos – nos EUA e na França - conseguiram isolar e identificar das células brancas do sangue de pacientes o vírus causador da AIDS: HIV. O Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) pertence ao grupo dos retrovírus, ou seja, vírus que contém RNA como material genético. Assim como todos os vírus, ele precisa de uma célula hospedeira para se reproduzir e, no caso do HIV, essa célula é um tipo de glóbulo branco especial chamado “T-helper”, que faz parte do sistema imunológico. O vírus reconhece essas células e fusiona-se a ela, através de pequenos “ganchinhos” que ele possui na sua superfície (veja na figura). Depois de fusionado, ele injeta seu conteúdo na célula, inclusive o RNA, que após sofrer modificações por enzimas específicas aloja-se no DNA da célula humana, fazendo com que o glóbulo branco então produza mais e mais cópias do vírus HIV. As células de defesa humana vão morrendo e perdendo a capacidade de defender o corpo e, por isso, as pessoas com AIDS têm o sistema imune debilitado.

Figura: esquema ilustrativo do vírus da AIDS. Glicoproteína: fica ancorada na superfície e permite o reconhecimento e a fusão aos glóbulos brancos; envelope e capsídeo: fazem parte da estrutura do vírus e ajudam a “proteger” o RNA (material genético). A transcriptase reversa é uma enzima que gera uma fita de DNA complementar à uma fita de RNA. Fonte: Taniguti, Lucas (2015): Esquema HIV. Figshare. http://dx.doi.org/10.6084/m9. figshare.1309469.

Um dos períodos críticos da infecção pelo HIV é o momento em que ocorre a fusão do vírus com a célula humana, como descrito no parágrafo anterior. Em outubro de 2014 cientistas conseguiram fusionar pequenas moléculas fluorescentes às proteínas da superfície externa do vírus HIV e assim observar, em tempo real, o que eles chamam “dança do HIV” - as mudanças conformacionais que vão ocorrendo na superfície do vírus que culminam na fusão deste com o glóbulo branco. Com essas informações os pesquisadores podem então desenvolver novas terapias que foquem em impedir a junção do HIV com as células humanas.

Também em 2014 um grupo de pesquisa conseguiu traçar a origem do vírus da AIDS utilizando análises genética e programas estatísticos. Usando amostras guardadas do vírus HIV (inclusive a considerada mais antiga) foi possível chegar ao “onde” e “quando”, provavelmente, originou-se a pandemia, criando uma “árvore genealógica” do vírus. Analisando as sequências os cientistas procuraram por “pegadas” das mutações que o HIV sofreu ao longo do tempo. Os cientistas acreditam que o vírus SIV (vírus da imunodeficiência dos símios – uma designação para um dos grupos de primatas) sofreu uma mutação, originando o vírus HIV. Essa mutação possibilitou a sua transmissão para os humanos quando, por exemplo, caçadores lidaram com carne contaminada de chipanzés.
Para os pesquisadores, a cidade de Kinshasa, hoje na República Democrática do Congo, foi o foco da epidemia, mas o que permitiu que o vírus se espalhasse foi um conjunto de fatores sociais e urbanos. Na década de 20 esta cidade estava em expansão e registros médicos da época mostram uma alta incidência de doenças sexualmente transmissíveis. Na cidade haviam muitos homens, o que causou também um aumento no mercado sexual, levando o vírus a se espalhar pois as pessoas tinham relações sexuais desprotegidas e com vários parceiros. Além disso, a falta de cuidado dos médicos com seringas e agulhas e as ferrovias que possibilitavam viagens por todo o país criaram condições perfeitas para o vírus se difundir de sua origem.
Desde então, a AIDS já matou mais 39 milhões de pessoas e, segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2013, 35 milhões eram portadoras do vírus. Com tudo isso podemos ver a importância das pesquisas que continuam avançando até hoje! Novas terapias e melhor compreensão da biologia da doença e do vírus levaram para os que tem a doença uma maior expectativa de vida, com mais saúde e conforto. É a ciência mais uma vez nos trazendo avanços! Mas vale ressaltar que ainda hoje esta é uma doença que permanece sem cura, portanto a prevenção continua sendo essencial!
Se você gostou do texto de hoje, abaixo estão as referências que usei e lá tem mais informações sobre o assunto. Qualquer dúvida ou sugestão são sempre bem-vindas!
Até a próxima!
Por Nathália de Moraes
nathalia.esalq.bio@gmail.com

Referências bibliográficas:
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[2] Manual Merck. (2015). Pneumonia por Pneumocystis carinii. Acessado de http://www.manualmerck.net/?id=67&cn=751
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[4] A name for the plague. (sem ano). Time. Disponível em: http://web.archive.org/web/20080307015307/http://www.time.com/time/80days/820727.html
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[8] Researchers Watch, in Real Time, the Dynamic Motion of HIV as it Readies an Attack. (2014). Weill Cornell Medical College. Disponível em: http://weill.cornell.edu/news/pr/2014/10/researchers-watch-in-real-time-the-dynamic-motion-of-hiv-as-it-readies-an-attack-scott-blanchard.html
[9] Gallagher, J. (2014). Aids: origin of pandemic ‘was 1920s Kinshasa’. BBC. Disponível em: http://www.bbc.com/news/health-29442642
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