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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

De fêmea para macho (e vice-versa)

     Nessa última matéria da série sobre a incrível variação encontrada nas relações entre os gêneros na natureza, vamos conhecer mais sobre o hermafroditismo sequencial. Um organismo hermafrodita é aquele que possui tanto órgãos reprodutores masculinos como femininos. Diferente do hermafrodita simultâneo que tem ambos os órgãos reprodutores funcionais ao mesmo tempo, o hermafroditismo sequencial ocorre quando o indivíduo é capaz de mudar de sexo ao longo da vida. O hermafroditismo sequencial pode ser encontrado em plantas, gastrópodes (como lesmas e caramujos) e peixes. Para saber mais sobre o hermafroditismo simultâneo, leia a segunda matéria da série (link).

     Existem algumas espécies de peixe em que a mudança ocorre apenas de fêmea para macho. Esse tipo de hermafroditismo é chamado protoginia e é o mais comum entre os peixes. Os bodiões são um grupo de peixes em que a protoginia ocorre. O bodião de cabeça azul (veja a foto abaixo) vive em haréns, que são organizações sociais compostas por um grupo de fêmeas, seus filhotes e um macho dominante. Dentro do harém, também existe uma hierarquia entre as fêmeas, em geral determinada pelo tamanho do animal; desta forma o maior peixe é o dominante. Nesse grupo, quando o macho morre, a fêmea dominante muda para o sexo masculino e o peixe que era a segunda fêmea na hierarquia se torna a dominante.

Bodião de cabeça azul (fonte: Wikipedia)

     Existem outras espécies de peixes que também são capazes de trocar de sexo de fêmea para macho, mas não têm o comportamento de formar haréns. Com uma estrutura social menos rígida, os mecanismos responsáveis pela mudança de sexo também podem ser mais flexíveis. O Thalassoma duperrey é outra espécie de bodião (veja a foto abaixo) que vive no arquipélago do Havaí e faz parte deste grupo. Neste caso, o estímulo que leva à mudança de sexo é a proporção de peixes grandes e pequenos no grupo que vive no local. Então a presença de muitos peixes pequenos estimula a mudança de algumas fêmeas para macho e a presença de muitos peixes grandes inibe essa mudança. [1]

Thalassoma duperrey (Fonte: https://www.flickr.com/people/maynard/)

     Outro tipo de hermafroditismo sequencial é a protandria, em que um indivíduo nasce como macho e se transforma em fêmea ao longo da vida. Um exemplo de espécie com esse comportamento é o peixe palhaço, a espécie do Nemo (foto). O peixe palhaço faz uma associação simbiótica (benéfica para ambos) com anêmonas e vive em grupos sociais compostos em geral por dois adultos sexualmente ativos (um macho e uma fêmea) e entre um e três peixes jovens. Para saber mais sobre simbiose, leia o box.

     Normalmente, todos os peixes-palhaço nascem com células imaturas de ambos os órgãos reprodutores masculino e feminino. Ao longo da vida, ocorre o desenvolvimento e amadurecimento dos órgãos reprodutivos em diferentes fases. Inicialmente, os órgãos masculinos se tornam maduros e os femininos continuam sem se desenvolver, então o peixe é funcionalmente um macho. Após esse período, o peixe entra na fase de transição, em que os órgãos femininos se desenvolvem, mas ainda não há produção de óvulos. Finalmente, os órgãos masculinos de degeneram e os óvulos começam a ser produzidos, então o peixe se torna uma fêmea. Em cada grupo, ou seja, em cada anêmona, o maior peixe é a fêmea. Quando a fêmea morre, o macho reprodutivo se torna uma fêmea e o segundo maior macho se torna o macho reprodutivo. Essa associação entre o sistema social, o ciclo de vida e a reprodução do peixe-palhaço pode ser considerada uma adaptação às condições adversas do ambiente, em que há muitos predadores e poucas anêmonas próximas umas das outras. [2]

     Com isso, chegamos ao fim desta série de textos. Continue nos acompanhado e descubra mais sobre a natureza. Se existe um tema que te interessa e você quer entender melhor, escreva pra nós e mande sua sugestão!


Box
Simbiose é um tipo relação entre organismos de espécies diferentes em que ambos têm alguma vantagem. As 26 espécies de peixes-palhaço têm esse tipo de relação com 10 espécies de anêmonas. A principal vantagem tanto para o peixe como para a anêmona é a proteção. Os peixes-palhaço produzem um muco que os protege das células urticantes presentes nos tentáculos das anêmonas. Ao mesmo tempo, a presença do peixe-palhaço protege a anêmona do ataque de possíveis predadores. [3]


por Patricia Sanae Sujii
sujiips@gmail.com
Referências
[1] Ross, R. M., Losey, G. S., & Diamond, M. (1983). Sex change in a coral-reef fish: dependence of stimulation and inhibition on relative size. Science(Washington), 217(4610), 574-576.

[2] Madhu, K., & Madhu, R. (2006). Protandrous hermaphroditism in the clown fish Amphiprion percula from Andaman and Nicobar islands. Indian Journal of Fisheries, 53(4), 373-382.

[3] Fautin, D. G. (1991). The anemonefish symbiosis: what is known and what is not. Symbiosis, 10, 23-46.


From female into male (and vice versa)

    In this last article about the incredible variation found in the relation between genders in nature, we will learn about sequential hermaphroditism. A hermaphrodite organism has both male and female reproductive organs. As opposed to the simultaneous hermaphrodite, which has both reproductive organs functional at the same time, sequential hermaphroditism happens when the individual is capable of changing its sex throughout its life. Sequential hermaphroditism can be found in plants, gastropods (such as slugs and snails) and fish. In order to learn more about simultaneous hermaphroditism, you can read the second article of the series (link).
 
     There are some species of fish in which the change occurs only from female to male. This type of hermaphroditism is called protogyny and is the most common one among fish. Wrasse (see picture) live in harems, which are social organizations composed by a group of females, their babies, and one dominant male. Inside the harem, there is also a hierarchy among the females, generally defined according to their sizes – the biggest fish is the dominant one. In this group, when the male dies, the dominant female changes into a male and the individual that was the second in the hierarchy becomes the dominant one.
 
Wrasse (Photo: Wikipedia)
     There are other fish species that are also able of changing from female into male, but that do not form harems. With a less strict social structure, the mechanisms responsible for sex change can also be more flexible. The Thalassoma duperrey is another species of wrasse (picture bellow) that lives in the archipelago of Hawaii and is a part of this group. In this case, the stimulus that leads to sex change is the proportion of big and small fish present in the group. Thus, the presence of too many small fish leads some females to change into males, and the presence of too many big fish inhibits this change. [1]
 
Thalassoma duperrey (Photo: https://www.flickr.com/people/maynard/)

     Another type of sequential hermaphroditism is the protandry, in which an individual is born as a male and becomes a female throughout its life. An example of a species with this behavior is the clownfish, Nemo’s species (picture). The clownfish makes a symbiotic association (beneficial for both parts) with anemones and lives in social groups usually composed by two sexually active adults (a male and a female) and from one to three young fish. To learn more about symbiosis, you can read the box below.
 
    Normally, all clownfish are born with immature cells of both male and female reproductive organs. Throughout their lives, these organs develop and are matured in different phases. Initially, the male organs become mature and the female ones do not develop, so the fish is, functionally, a male. After this period, the fish enters the stage of transition, in which the female organs develop, but there is still no production of eggs. Finally, the male organs degenerate and the eggs start being produced, so the fish becomes a female. In each group, that is, in each anemone, the biggest fish is the female. When the female dies, the reproductive male becomes a female and the second biggest male becomes the reproductive male. This association of the social system with the life cycle and the reproduction of the clownfish can be considered an adaptation to adverse conditions in the environment, when there are many predators and few anemones close to each other. [2]
 
     With this, we have come to the end of this series. Keep reading us and learn more about nature. If there is a theme that interests you and that you want to understand better, write to us and send us your suggestion!

Box
Symbiosis is a kind of relation between organisms of different species in which both of them are benefited. The 26 species of clownfish have this relation with 10 species of anemones. The main advantage for both the clownfish and the anemone is protection. The clownfish produce mucus that keeps them safe from the urticating cells present in the anemones’ tentacles. At the same time, the presence of clownfish protects the anemones from attacks of possible predators. [3]


Written by Patricia Sanae Sujii
Translated by Thomaz Offrede


References
[1] Ross, R. M., Losey, G. S., & Diamond, M. (1983). Sex change in a coral-reef fish: dependence of stimulation and inhibition on relative size. Science(Washington), 217(4610), 574-576.

[2] Madhu, K., & Madhu, R. (2006). Protandrous hermaphroditism in the clown fish Amphiprion percula from Andaman and Nicobar islands. Indian Journal of Fisheries, 53(4), 373-382.

[3] Fautin, D. G. (1991). The anemonefish symbiosis: what is known and what is not. Symbiosis, 10, 23-46.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

De onde viemos e como chegamos aqui?

   Você já se perguntou de onde viemos? Ou como os humanos colonizaram cada continente? Ou como se formaram as diferentes etnias? A história evolutiva humana é objeto de discussão e pesquisa há milhares de anos. Filósofos da Grécia antiga já se questionavam sobre nossa origem. Pesquisadores das mais diversas áreas de estudo (biologia, geografia, química, antropologia, linguística, etc…) buscam entender como, onde e quando nossa espécie surgiu e como nos espalhamos pelo mundo. O desenvolvimento de tecnologias que permitem ler o genoma rapidamente a um custo razoável somado às pesquisas arqueológicas, antropológicas e sobre mecanismos evolutivos podem nos ajudar a responder a perguntas como essas.

Fonte: National Geographic
   Um projeto iniciado em 2005, conhecido como “The Geographic Project”, tem o objetivo de entender onde os humanos se originaram e como se espalharam pelo mundo. O projeto reúne um grande grupo de pesquisadores de diversos países (Veja mais aqui) que usam técnicas modernas de análise genética para mapear as diferenças entre as sequências de DNA de populações indígenas de cada região do mundo. Além disso, qualquer pessoa pode ser um voluntário, ter seu DNA sequenciado e participar do projeto, basta comprar o kit de coleta [1].

   O projeto tem gerado resultados que nos contam um pouco da nossa história. Estudos anteriores genéticos e arqueológicos mostram evidências de que o Oriente Médio e a península Arábica tenham sido os primeiros locais ocupados pelos humanos fora da África, mas pouco se sabia a respeito de como essas populações têm se organizado nos últimos milênios. Um estudo do DNA de populações nativas da área de Levante, no Oriente Médio, mostrou que as pessoas podem ser organizadas em três grupos, que coincidem com as principais filiações religiosas (cristãos, muçulmanos e drusos). Por outro lado, não é possível agrupar essas pessoas pela sua origem geográfica, o que mostra um importante componente cultural para formação das famílias na região [3].

   Um outro estudo, realizado com grupos nativos do sudeste asiático, indicou que as populações se instalaram na região há aproximadamente 19 mil anos. Na época das migrações, o clima na região era mais frio do que atualmente e o relevo formava grandes barreiras, o que permitia que apenas pequenos grupos conseguissem migrar. A conclusão do estudo foi que o isolamento e o tamanho restrito dos grupos de pessoas foram os responsáveis pela diversificação étnica na região [3].

   Na América do Sul, pesquisadores compararam os Uros (populações nativas dos Andes, encontradas na Bolívia e no Peru) com outras populações dos andinas (Aymara and Quechua). Antropólogos e linguistas já consideraram os Uros como um grupo étnico separado dos Aymara e Quechua, por apresentarem diferentes tradições, hábitos e línguas. Resultados dos estudos genéticos confirmaram que os Uros têm uma origem diferente das demais populações andinas e os grupos foram formados tanto por isolamento geográfico como por diferenças culturais [4].

   Esses estudos mostram um pouco da complexidade da história das migrações de grupos de humanos pelo planeta, mas ainda há muito o que se estudar sobre esse assunto, por isso o projeto ainda está em andamento. Os pesquisadores continuam a buscar outros grupos nativos e voluntários continuam a mandar suas amostras de DNA. Você pode encontrar mais informações sobre o projeto, material didático e novas descobertas na página: www.genographic.nationalgeographic.com
  

por Patricia S. Sujii
 sujiips@gmail.com


Referências


Projeto Genographic: https://genographic.nationalgeographic.com/

[1] Behar, D. M., Rosset, S., Blue-Smith, J., Balanovsky, O., Tzur, S., Comas, D., ... & Genographic Consortium. (2007). The Genographic Project public participation mitochondrial DNA database. PLoS Genetics, 3(6), e104.

[2] Haber, M., Gauguier, D., Youhanna, S., Patterson, N., Moorjani, P., Botigué, L. R., ... & Zalloua, P. A. (2013). Genome-wide diversity in the levant reveals recent structuring by culture. PLoS genetics, 9(2), e1003316.

[3] Cai, X., Qin, Z., Wen, B., Xu, S., Wang, Y., Lu, Y., ... & Genographic Consortium. (2011). Human migration through bottlenecks from Southeast Asia into East Asia during Last Glacial Maximum revealed by Y chromosomes. PLoS One, 6(8), e24282.

[4] Sandoval, J. R., Lacerda, D. R., Jota, M. S., Salazar-Granara, A., Vieira, P. P. R., Acosta, O., ... & Genographic Project Consortium. (2013). The genetic history of indigenous populations of the Peruvian and Bolivian Altiplano: the legacy of the Uros. PloS one, 8(9), e73006.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A origem mutante da tolerância à lactose

Você já deve ter ouvido falar dos X-Men. Eles são personagens de histórias em quadrinhos que têm super-poderes graças a mutações no DNA. Você acha que existem mutantes entre nós ou isso coisa de ficção?


Nessa matéria, vamos falar sobre a história evolutiva de uma mutação que surgiu em humanos há muitos anos e que foi essencial para a apreciação de maravilhas como a enorme variedade de queijos, o doce de leite e o chocolate.

É comum conhecermos pessoas que dizem não poder tomar leite ou iogurte, que são intolerantes à lactose, mas quando eram crianças não tinham esse problema. Isso é normal? Na verdade, esse é o cenário mais comum quando se considera os mamíferos como um todo: tomar leite materno logo ao nascer e mudar para uma dieta sem leite conforme crescem. Nós, humanos, somos exceções que conseguimos aproveitar o leite até na fase adulta. Vamos ver como isso aconteceu.

O leite e seus derivados contêm um tipo de açúcar chamado lactose e a lactase é a enzima responsável por digerir esse açúcar. Normalmente, as pessoas, assim como todos os outros mamíferos, conseguem digerir bem e obter energia da lactose desde que nascem até o fim da fase de amamentação. Apesar da maioria dos mamíferos diminuir e até encerrar a produção dessa enzima lactase quando deixam de depender do leite materno, atualmente cerca de 35% dos humanos adultos ainda são capazes de digerir lactose. Saiba mais sobre essa pesquisa aqui [1].

Ao longo da história evolutiva surgiram mutações em humanos que fizeram com que a lactase fosse produzida por mais tempo e, em alguns casos, até o final da vida. Essa mutação parece estar associada à prática do pastoreio, mas existem duas hipóteses que explicam como se dá essa associação. A primeira hipótese diz que a mutação surgiu e se espalhou em um grupo de pessoas por acaso, mas por terem a mutação, com o tempo começaram a consumir mais leite. A outra hipótese diz que a população de pastores já consumia leite e como a mutação conferia uma vantagem, essa característica se espalhou, assim como acontece em diversos casos de seleção natural. Estudos arqueológicos apoiam a segunda hipótese. Arqueólogos estudaram objetos de cerâmica com resíduos orgânicos que indicam o uso de leite há cerca de 8,5 mil anos no oeste da Turquia. Neste local, ainda hoje a mutação que faz a lactase ser produzida até a idade adulta é rara, o que indica que animais domésticos eram ordenhados mesmo que a mutação não estivesse presente. Veja mais aqui [2]. Existem evidências de que outras mutações com o mesmo resultado (produção de lactase em adultos) surgiram independentemente em outros continentes, como a África, por exemplo. Um estudo do DNA de pessoas da Tanzânia, do Kênia e do Sudão mostrou que três mutações diferentes resultaram no aumento da frequência da tolerância a lactose nessas populações nos últimos 7 mil anos [3].

Para maioria das pessoas é difícil imaginar a seleção natural atuando em humanos, mas há milhares de anos, quando não existiam supermercados, geladeira e suplementos alimentares, ter uma fonte de calorias constante era uma grande vantagem evolutiva. Por exemplo, quando ocorriam secas e a produção de grão era baixa ou entre os períodos de colheita, muitas pessoas poderiam não ter alimento suficiente para sobreviver ou para sustentar mais filhos. Se houvesse uma fonte de energia, como o leite, a falta de alimentos poderia ser um problema menor. Além disso, o leite também é uma fonte de cálcio muito importante, especialmente para pessoas que vivem em locais com pouca incidência de sol, o que acontece no norte da Europa, onde a mutação ocorre com uma frequência muito alta (89 a 96%).

Ainda há muito o que estudar para compreendermos os processos evolutivos que nos trouxeram até o que somos hoje. A genética e a arqueologia são duas áreas do conhecimento que podem nos levar a descobrir nossa história e existem ainda muitas outras. Leia aqui mais detalhes sobre esses estudos. [4]

Então, você é um mutante?

Existem outras mutações importantes que surgiram relativamente há pouco tempo nos humanos, como a que torna pessoas imunes ao vírus da AIDS. Vamos falar delas em outras publicações! Acompanhe!


Referências
[1] Ingram, C. J., Mulcare, C. A., Itan, Y., Thomas, M. G., & Swallow, D. M. (2009). Lactose digestion and the evolutionary genetics of lactase persistence. Human genetics, 124(6), 579-591.

[2] Evershed, R. P., Payne, S., Sherratt, A. G., Copley, M. S., Coolidge, J., Urem-Kotsu, D., ... & Burton, M. M. (2008). Earliest date for milk use in the Near East and southeastern Europe linked to cattle herding. Nature, 455(7212), 528-531.


[3] Tishkoff, S. A., Reed, F. A., Ranciaro, A., Voight, B. F., Babbitt, C. C., Silverman, J. S., ... & Deloukas, P. (2007). Convergent adaptation of human lactase persistence in Africa and Europe. Nature genetics, 39(1), 31-40.

[4] Gerbault, P., Liebert, A., Itan, Y., Powell, A., Currat, M., Burger, J., ... & Thomas, M. G. (2011). Evolution of lactase persistence: an example of human niche construction. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 366(1566), 863-877.
http://rstb.royalsocietypublishing.org/content/366/1566/863.full

[5] http://news.sciencemag.org/archaeology/2015/04/how-europeans-evolved-white-skin


por Patricia Sanae Sujii
sujiips@gmail.com

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Carnaval das aves do paraíso

    O carnaval é um período de festas, desfiles, cores e performances. Essa é uma época em que mesmo as pessoas mais discretas podem se fantasiar e se comportar de forma mais extravagante e, em alguns casos, tanto homens como mulheres usam as mais diversas estratégias para chamar a atenção. Esse tipo de comportamento é muito comum na natureza, em especial quando chega o momento da reprodução. Um grupo de animais com um comportamento muito interessante são as aves do paraíso, um conjunto composto por 15 gêneros e 39 espécies, que podem mudar de cor e forma para atrair um par para acasalar.

    Existe uma grande variedade de cores e formas de penas e plumas nas aves. Elas podem ser discretas, em tons de marrom ou cinza, ou podem ser coloridas e chamativas. Cada cor ou padrão pode conferir vantagens para a ave e alguns desses padrões têm chamado a atenção de diversos pesquisadores. Por exemplo, estudos mostraram que, em geral, penas pretas são mais resistentes a abrasão do que penas brancas. Esse é um dos motivos pelo qual vemos aves que costumam ter longos voos têm penas pretas nas pontas das asas, onde o atrito com o ar é maior. As penas vermelhas em geral são ricas em carotenóides, que conferem proteção contra bactérias. Padrões de marrom podem ajudar a ave a se camuflar em meio à floresta, o que ajuda a surpreender uma presa ou a se esconder de predadores. Por outro lado, cores muito vibrantes podem indicar a um predador que a ave produz algum tipo de substância que a torna tóxica ou pode indicar um gosto muito ruim.

    É muito comum encontrarmos espécies de aves em que o macho é muito colorido ou tem penas diferentes, enquanto a fêmea é mais discreta, como é o caso das aves do paraíso. Uma explicação muito bem aceita é que, em geral, a fêmea é responsável por escolher o macho com quem vai acasalar, portanto é importante que o macho tenha características que possam ser atraentes.

    As aves do paraíso são um exemplo extremo do esforço do macho para conquistar a fêmea, dentre as estratégias usadas há a mudança de forma, mudança de cor e até danças muito características. O Parotia lawesii tem penas iridescentes (fruta-cor) no peito que podem mudar de azul para amarelo, dependendo do ângulo do qual se observa. Essa mudança abrupta de cor é possível graças ao formato de “boomerang" das bárbulas (filamentos que compõem as penas). Os machos da espécie Lophorina superba são capazes de mudar sua forma original para algo que nem mesmo lembra uma ave (veja a figura abaixo!).



    Outra estratégia para atrair a fêmea é executar coreografias, que em alguns casos são associadas às mudanças de forma e às cores chamativas. Veja um exemplo no vídeo abaixo.

  

    Por que não vemos essa grande variedade de cores, formas e danças na maioria das espécies? Cada espécie evolui de forma diferente e por mecanismos diferentes. As aves do paraíso competem intensamente pelas fêmeas e não tão intensamente por outros recursos como alimento e abrigo. Entenda melhor como isso funciona lendo o box.

Box. Por que as aves do paraíso têm essa grande variedade de cores, formas e danças? 
    Existem vários motivos que se somam e levam cada espécie a evoluir de formas diferentes. As aves do paraíso são poligâmicas e existe uma grande competição entre os machos pelas fêmeas. Então, os machos mais “atraentes" acabam produzindo mais filhotes e cada geração as características que dão alguma vantagem a esses machos (cores, formas e comportamentos) aumentam em frequência na população. Outro fator importante é a grande disponibilidade de alimentos nas ilhas da Nova Guiné e arredores, onde essas aves habitam. A abundância de alimentos permite que todos os indivíduos sejam bem nutridos. Portanto, não existe uma vantagem em ser mais rápido ou se camuflar bem para obter alimento. Isso quer dizer que nesse caso, a seleção natural atua mais intensamente sobre características importantes para reprodução do que sobre as demais características.

    Veja mais fatos curiosos, fotos, vídeos e conheça melhor esse grupo impressionante de aves na página do laboratório de ornitologia da Universidade de Cornell clicando aqui.


Patricia Sanae Sujii
Fale com a autora: sujiips@gmail.com



Para saber mais sobre essas aves lindas e extraordinárias:

[1] http://www.birdsofparadiseproject.org

[2] Irestedt, M., Jønsson, K. A., Fjeldså, J., Christidis, L., & Ericson, P. G. (2009). An unexpectedly long history of sexual selection in birds-of-paradise. BMC evolutionary biology, 9(1), 235.
[3] Stavenga, D. G., Leertouwer, H. L., Marshall, N. J., & Osorio, D. (2010). Dramatic colour changes in a bird of paradise caused by uniquely structured breast feather barbules. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, rspb20102293.
[4] Hill, G. E., & McGraw, K. J. (Eds.). (2006). Bird coloration: function and evolution (Vol. 2). Harvard University Press.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Quem tem medo?


"O medo é o caminho para o lado negro", disse Mestre Yoda ao pequeno Anakin Skywalker em um dos episódios de Star Wars. Não me leve a mal, Mestre Yoda, mas este sentimento não é tão ruim quanto parece. Diferente do que a maioria das pessoas pensa, o medo é muito importante para nossa sobrevivência. Sem ele e suas respostas fisiológicas não teríamos sobrevivido a muitas situações da vida pré-histórica de nossa espécie. Mas afinal: o que é o medo?
          O medo é uma cascata de reações que ocorre em nosso corpo que é iniciada por um estímulo e culmina em uma das duas respostas: lutar ou fugir. O estímulo percebido pelo nosso corpo pode ser uma barata, o receio de se apresentar frente a uma sala de aula ou até mesmo uma prova. Independente do estímulo, nosso cérebro interpreta a situação potencialmente perigosa e gera uma série de respostas: liberação de hormônios, como a adrenalina (que faz o coração disparar); o suor frio; a dilatação das pupilas; a mudança da feição do rosto, como a tensão; entre outras. Estas mudanças fazem com que nosso corpo tenha energia o suficiente para lutar e enfrentar o estímulo que causou o medo ou fugir do mesmo. 
Fonte imagem: http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=61538&picture=homem-aterrorizado&large=1
Mas como isso ajuda na nossa sobrevivência e das outras espécies de animais? Sem o medo não teríamos receio de nenhuma situação, o que poderia nos colocar em circunstâncias com risco real de morte. O medo de ratos nos acompanha desde a pré-história, esses roedores sempre foram associados à transmissão de doenças aos humanos. Já o medo de lugares fechados vem das cavernas, onde nossos antepassados viviam, que eram locais perigosos pois tornavam os homens mais vulneráveis ao ataque de animais pelas limitadas opções de fuga. Hoje em dia, o receio de andar sozinho em uma rua à noite é justamente uma forma de nos manter em alerta para reagir a algo ruim que possa acontecer. Como vemos, o medo é algo adaptativo e graças a ele nossos ancestrais viveram e nós estamos vivos hoje.
As sensações desencadeadas pelo medo podem ainda trazer prazer, como aquele frio na barriga ao assistir a um filme de terror. Nesse caso, nosso cérebro entende que estamos no lugar do personagem do filme e então vivenciamos com mais ou menos a mesma intensidade o que ocorre com ele, de uma forma bem menos perigosa e mais controlada, é claro.
E será que os nossos medos hoje são os mesmo de quando éramos crianças? Será que são iguais aos que nossos pais têm? A resposta é: possivelmente não. O medo é um sentimento que tende a mudar conforme a idade; as crianças, por exemplo, têm medo de fantasmas e do bicho-papão, mas os adultos têm medo de assaltos, de ficar sem emprego ou de perder alguém importante em sua vida.
 É claro que medo em excesso também é ruim e isso se chama fobia. Existem diversas fobias como de altura, de aranha, de cachorro e de lugares fechados. E, inclusive, as pessoas que sofrem de tal doença precisam buscar ajuda de médicos e psicólogos, pois esse medo exagerado pode atrapalhar suas vidas.
 Para fugir ou para enfrentar uma situação, ao assistir a um filme ou correr de uma barata, o medo rege em nossos corpos reações em cadeia importantes para nossa sobrevivência. Por isso, leitor, não tenha medo e clique nos links abaixo se tem mais interesse sobre o assunto. Deixe também seus comentários na nossa página!

Até a próxima! 

Por Nathália de Moraes
nathalia.esalq.bio@gmail.com

Referências:
[2] Leahy, R.L. (2008). Are we born to be afraid? Acessado em 27 de outubro de 2014.