quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Raios: um alerta de perigo!

Chegou o verão! Uma das quatro estações do ano, o verão é muito esperado por todos os brasileiros, que aproveitam as férias do final de ano com tudo de melhor que a estação traz! No Brasil, o verão tem início com o solstício, que acontece cerca de 20 de dezembro e se estende até o mês de março, com suas principais características sendo as altas temperaturas e umidade, culminando em calor excessivo durante o dia e grandes tempestades no final da tarde. Vocês sabem os perigos por traz dessas tempestades?
No final do ano fomos todos pegos de surpresa por diversas notícias sobre mortes por raios em diferentes locais do país, principalmente na região sudeste. Nos últimos dias de 2014, quatro pessoas da mesma família foram mortas por um raio na cidade de Praia Grande, litoral de São Paulo. Já no interior do estado de São Paulo, em uma área rural, um único raio matou 24 bois que se refugiavam de uma tempestade em baixo de uma árvore. E 2015 não promete ser diferente. No dia 5 de janeiro, no munícipio de Embu-Guaçu, em São Paulo, quatro trabalhadores rurais foram atingidos por um raio quando tentavam se abrigar da tempestade em um galpão.
Mas, o que são os raios? Raio é uma descarga elétrica de grande intensidade que ocorre na atmosfera, entre regiões eletricamente carregadas. Este fenômeno vem acompanhado por dois grandes amigos inseparáveis, o relâmpago e o trovão. Os parâmetros que um raio atinge assustam, com valores de 125 milhões de volts, 200 mil ampères e 25 mil graus Celsius. No ultimo ano foram registadas mais de 100 mortes por raios, além dos grandes prejuízos com a rede elétrica e queda de árvores. Já podemos perceber que apesar da beleza que esse fenômeno nos presentear no céu, trás junto um alerta de perigo: Cuidado, é bom procurar um local seguro!
Figura 1: Fotografia de um raio durante uma tempestade (Fonte: http://mrg.bz/Wijjrp

O Brasil é o primeiro país em quantidade de raios do mundo, com cerca de 500 milhões de raios por ano. As regiões as regiões Sudeste e Sul apresentam juntas a incidência de 25 milhões de raios anualmente, concentradas principalmente no período de dezembro a março, justamente no período de verão. As vítimas podem sofrer traumatismo e queimaduras, chegando a óbito. A maioria das vítimas é atingida ao ar livre, embaixo de árvores ou na água. Muitos dos casos de acidente com raios talvez pudessem ter sido evitados, caso as pessoas soubessem quais abrigos são seguros durante uma tempestade e agissem rápido e sem negligência, percebendo o real perigo desse fenômeno.
Vamos falar de medidas de segurança? As tempestades de verão surgem do nada e é preciso agir rápido! É extremamente perigoso ficar em espaços abertos, praias, botes, topos de elevação e embaixo de árvores. Também é perigoso ficar próximo a torres e redes de alta tensão, cercas elétricas, e estruturas metálicas de maneira geral. Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) o ideal é procurar um abrigo fora da chuva. Se estiver em um carro, o ideal é fechar as janelas e evitar o contato com as partes metálicas de sua estrutura. Se for abrigar-se em uma residência é importante manter distância de tomadas, equipamentos eletrônicos e telefones sem fios.
Essas medidas apesar de parecerem simples são fundamentais para garantir a segurança e bem estar de todos. Principalmente na época do final de ano, com o período de férias e alto verão, muitas pessoas recorrem a praias para descansar e refrescarem-se. Porém, é preciso estar sempre atento, muitas praias apresentam guarda-vidas que alertam as pessoas para saírem da água com a aproximação da tempestade, escute-os, eles estão lá para ajudar! Vamos respeitar os fenômenos da natureza, como os raios, que apesar de serem lindos são extremamente perigosos.  Agora, sabendo o que é um raio e como se proteger, que tal praia e água de coco? Ahh o verão!

Por: Nathalia Brancalleão
na_brancalleao@hotmail.com 

Referências bibliográficas:
Rakov, V. A., & Uman, M. A. (2003). Lightning: physics and effects. Cambridge University Press.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Por que é tão difícil cumprir as promessas de ano novo?

    Nós, humanos, nos orgulhamos da nossa capacidade de pensar e decidir sobre nossas ações em vez de apenas “seguir os nossos instintos”. Entretanto, felizmente nem sempre precisamos pensar e decidir qual será a próxima ação. Por exemplo, quando você acordou hoje de manhã, você pensou em como desligar o despertador ou simplesmente apertou o botão de desligar (ou o de soneca) automaticamente? Quando vai sair de casa, você pensa se vai colocar o sapato direito ou esquerdo primeiro? Você pensa em qual parte do corpo você vai lavar primeiro quando toma banho?
    Há muitos anos o funcionamento do cérebro humano tem intrigado pesquisadores das mais diversas áreas e, apesar de ainda existirem muitos mistérios, já temos algumas respostas. Cientistas descobriram, por exemplo, que mais de 40% das ações realizadas por uma pessoa durante um dia não são decorrentes de decisões, mas sim de hábitos. Em qualquer situação, o cérebro é forçado a escolher entre múltiplas ações e seria exaustivo ter que efetivamente pensar em cada uma delas. Ou seja, nossos hábitos nos poupam tempo e energia, o que costuma ser evolutivamente vantajoso!
Eles também descobriram que nossos hábitos e as memórias são gerenciados em partes diferentes do cérebro. O lobo temporal, que fica na parte lateral da cabeça, é responsável pela aprendizagem e pelas nossas memórias, enquanto que os hábitos estão relacionados aos gânglios basais, um grupo de estruturas mais primitivas, encontradas na base do cérebro e envolvidas na coordenação do movimento. Isso quer dizer que por mais que uma pessoa aprenda rapidamente que um certo hábito não é desejável, a ação ligada a ele é executada sem que a memória seja consultada.
    Então, é possível mudar um hábito e cumprir as famosas promessas de ano novo?
    Vamos começar entendendo como um hábito se forma. O ponto inicial é a descoberta. Começamos a aprender como responder ou reagir a determinada situação (estopim) e formar planos de ação. Esses planos são formados de modo que o resultado seja o mais vantajoso possível, o que pode ser economia de tempo ou de energia ou obter algum tipo de recompensa e às vezes, precisamos testar vários planos antes de começar a repetir algum. Então, com a repetição, o comportamento se torna mais automático e menos flexível, quase como um reflexo ou uma rotina. Portanto, os hábitos são executados da seguinte forma: estopim - rotina - recompensa, o que é conhecido como 'ciclo do hábito'.
    Considerando esse ciclo, sim, é possível mudar um hábito indesejado. Primeiro, é importante descobrir qual é o estopim e a recompensa do hábito que queremos mudar. Então, mantemos tanto o estopim como a recompensa e trocamos apenas rotina, que seria o novo hábito. O problema é que hábitos antigos não são apagados. Eles podem ser substituídos por novos hábitos e são armazenados em outra parte do cérebro. A qualquer momento o velho hábito pode voltar, dependendo do estímulo, da relação entre o esforço necessário e a recompensa do novo hábito, e também de outros fatores que ainda estão sendo estudados. Por isso, mantenha a recompensa em mente e execute seu novo plano de ação sem faltas de forma a substituir seu hábito indesejável da melhor maneira possível e boa sorte! Que 2015 seja um ótimo ano, cheio de bons hábitos!


Por: Patricia Sanae Sujii
sujiips@gmail.com

Referências
[1]Old habits don't die. www.natureasia.com/en/nindia/article/10.1038/nindia.2013.30 (Acessado em: 10/01/2015).
[2]Duhigg, C. (2012). The power of habit: why we do what we do in life and business. Random House LLC.
[3]Yin, H. H., & Knowlton, B. J. (2006). The role of the basal ganglia in habit formation. Nature Reviews Neuroscience, 7(6), 464-476.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Criação de Folha Sintética


       Algo completamente inovador foi criado pelo estudante Julian Melchiorri, do Royal College of Art, Reino Unido que, em parceria com a Universidade Tufts nos EUA, desenvolveram o projeto intitulado “Folha de Seda” que criou uma folha sintética com capacidade de realizar fotossíntese, antes restrita aos representantes do reino vegetal.
A folha sintética foi criada a partir de solução obtida de folhas naturais, de onde foi possível obter os cloroplastos. Os cloroplastos são as estruturas responsáveis pelo processo de fotossíntese que têm como produto a glicose e o oxigênio. Este processo é possível graças a presença de um pigmento chamado de clorofila, que é o responsável por converter a luz solar em energia química.
Os cloroplastos extraídos foram colocados em uma matriz feita de proteína de seda, onde se estabilizaram e continuaram a “funcionar”. Assim, da mesma forma que as folhas naturais, a folha sintética necessita de luz e uma pequena quantidade de água para produzir oxigênio, que é um dos produtos da fotossíntese.
O desenvolvimento desse material é de grande interesse para a agência aeronáutica Norte Americana, a NASA, uma vez que um dos problemas das longas viagens espaciais é a grande quantidade de oxigênio necessária para o período da expedição. Assim, o desenvolvimento de materiais como este pode facilitar muito as futuras expedições espaciais.
Você pode estar pensando, se o problema é a falta de oxigênio, porque ao invés de criarem “folhas artificiais” simplesmente não levam plantas que realizam esse processo naturalmente? Essa solução não é possível por dois motivos: primeiro, o número de vegetais necessários para a produção diária de oxigênio para 3 ou 4 pessoas seria inviável e segundo, na ausência de gravidade, as plantas não conseguem sobreviver.
Além dessa utilização, as folhas artificiais poderiam ser utilizadas em decoração de fachadas, telhados e até mesmo luminárias, que além do aspecto visual, forneceriam um ar altamente rico em oxigênio a esses ambientes.

Por: Jaqueline R. de Almeida
 jaqueline.raquel.almeida@usp.br

Referências:
[1]http://www.dezeen.com/2014/07/25/movie-silk-leaf-first-man-made-synthetic-biological-leaf-space-travel/(Acessado em: 25/08/2014).

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Grandes avanços da ciência em 2014

 Em clima de final de ano e retrospectivas, vemos que este foi um ano de grandes conquistas para a ciência de maneira geral, conseguimos grandes avanços, principalmente nas áreas da medicina e da aeronáutica. Então vamos listar alguns eventos que entraram para a história.
Imagens: 1:Missão Rosetta.Fonte:Fotografia © ESA; 2:Sangue jovem contra Alzheimer.Fonte:© 13/Jochen Sands/Ocean/Corbis; 3:Células tronco para tratamento de diabéticos.Fonte: Thinkstock/VEJA ; 4:O novo alfabeto genético.Fonte: Thinkstock/VEJA; 5: Robôs construtores.Fonte: Eliza Grinnell, Harvard SEAS.

1)Missão Rosetta
Esta missão demonstrou um grande avanço tecnológico e aeronáutico, uma vez que foi a primeira vez que uma sonda conseguiu orbitar e pousar com sucesso em um cometa. Este evento aconteceu no dia 12 de novembro e foi muito comemorado pelos cientistas. Eles tinham como objetivo comprovar a possível hipótese de que a água presente em nosso planeta teria chegado por cometas. Porém, as primeiras análises realizadas pela sonda descartam essa hipótese, pois a composição da água presente no cometa revelou-se distinta da que possuímos.
De maneira geral, estudar e composição e os processos de formação de cometas é considerado uma das principais formas para decifrar o princípio da formação do Sistema Solar.

2) Sangue jovem contra Alzheimer
Estudos realizados na Universidade de Stanford revelaram que a transfusão de sangue de camundongos jovens para camundongos mais velhos resultou em fortalecimento da memória destes, frente aos animais mais velhos que não receberam o tratamento. Essa descoberta levanta a possibilidade de um novo tipo de tratamento para pessoas que sofrem com a doença de Alzheimer. Acredita-se que o responsável por esse processo seja uma molécula chamada fator de crescimento de diferenciação ou GDF11, que previne os efeitos negativos da idade. Estudos em humanos já estão sendo feitos desde setembro.
Para ler um pouquinho mais : http://hypescience.com/alzheimer-sangue-jovem/

3) Células tronco para tratamento de diabéticos
Pesquisadores desenvolveram métodos diferentes para criar células beta (responsáveis pela produção de insulina no pâncreas) em laboratório , a partir de células tronco pluripotentes. A introdução de células beta saudáveis em pessoas recém diabéticas (diabetes tipo 1), pode-se tornar uma possível cura ou mesmo uma redução da utilização de insulina por estes pacientes.
Para saber mais sobre a pesquisa que esta sendo realizada no país leia: http://www.fmrp.usp.br/estudo-premiado-investiga-tratamento-com-celulas-tronco-para-diabeticos/

4) O novo alfabeto genético
Pesquisadores americanos criaram uma bactéria que possui 6 “letras” em seu DNA, ou invés de 4, como é comum a todos os seres vivos. Essas letras são na verdade bases nitrogenadas que constituem o DNA, (A(adenina); T(timina); C(citosina) e G(guanina)). Na pesquisa realizada com a Bactéria Escherichia coli, os cientistas incorporaram mais um par de bases nitrogenadas ao DNA da bactéria, denominadas d5SICS e dNaM, ou X e Y, respectivamente. Este feito podem levar ao desenvolvimento de microrganismos com propriedades medicinais, novos antibióticos, vacinas e diferentes tipos de materiais industriais com uma complexidade química maior do que os produtos atuais.

5) Robôs construtores
Pesquisadores da Universidade de Harvard criaram robôs inspirados em cupins. Estes robôs não precisam seguir um plano previamente determinado, são capazes de se organizarem e montarem estruturas complexas. Em demonstrações feitas, eles constroem torres, pirâmides e escadas. Os pesquisadores acreditam que eles poderiam ser usados em locais perigosos ou difíceis para o homem.

Essas são apenas algumas das grandes descobertas e feitos da ciência este ano. Ainda temos muito para descobrir e compreender, então que 2015 seja um ano com ainda mais descobertas em todas as áreas e que você leitor esteja sempre com a gente!!

Por: Jaqueline R. de Almeida

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Humm! Isso me cheira à Natal!


    Passado o dia das crianças, começamos a ver a decoração de Natal em um ponto ou outro da cidade. Do meio pro fim de novembro, a decoração se espalha e em dezembro é difícil encontrar uma loja sem pelo menos um pinheirinho, luzinha piscando ou um Papai Noel. O Natal deixou de ser apenas uma data em que se comemora o nascimento de Jesus e tornou-se também o maior motivo para consumo no ano.

    Para atrair clientes, as lojas adotam diversas estratégias que incluem decoração chamativa, músicas que remetem ao Natal e até cheirinho de Natal. No Brasil, talvez essa prática não seja tão comum, mas em países como Canadá e Estados Unidos por exemplo, o fim do ano é associado ao cheiro de pinheiros, canela e sidra quente (equivalente ao nosso vinho quente das festas juninas).
    Talvez você já tenha percebido que a música tem efeito sobe nosso humor e sobre a percepção de tempo, mas estudos mostram que também tem efeito sobre como selecionamos um produto na hora da compra e na interação entre vendedor e comprador. Pensando nisso, um grupo de pesquisadores de uma universidade americana e uma canadense resolveram investigar qual são os efeitos dos cheiros e dos sons sobre como o consumidor avalia uma loja [leia o artigo completo aqui].
    Os pesquisadores fizeram um experimento com 130 estudantes americanos, metade de cada gênero e em geral jovens de aproximadamente 21 anos. Eles disseram aos estudantes que a pesquisa tinha o objetivo de avaliar o potencial de mercado para uma loja de departamento que talvez fosse abrir na região. Os estudantes foram separados em grupos e cada um passou por uma experiência diferente (com música de Natal ou música não natalina; e com ou sem cheiro ‘de Natal’). Depois de ver imagens de diversos produtos que seriam vendidos na loja, os estudantes responderam a um questionário para avaliar a loja, os produtos e o ambiente.
    O resultado da pesquisa foi que apenas a música natalina não teve efeito sobre a avaliação da loja, do ambiente e dos produtos. Por outro lado, o grupo que passou pela experiência na sala com música natalina e com cheiro de Natal fez uma avaliação melhor, ou seja, o conjunto música/cheiro agradou mais. Finalmente, o grupo que passou pela sala com cheiro de Natal, mas com música não natalina em alguns casos fez uma avaliação menos favorável! Ou seja, cheiro de Natal com música “normal" não combinam! A conclusão é: "Seja congruente! Se vai ter cheiro de Natal, o resto precisa combinar."
    O experimento foi feito entre o meio de outubro e o fim de novembro. Será que em outra época do ano as pessoas continuariam sendo afetadas positivamente pelo cheiro natalino? Seguindo a conclusão, sejamos congruentes, árvore de Natal e Papai Noel perto do dia das mães não devem dar muito certo. Os pesquisadores levantam uma questão interessante: “Quão cedo as lojas devem começar a ser decoradas pras festas de fim de ano?”. Pode ser impressão minha, mas parece que a cada ano isso acontece mais cedo. Possivelmente tem algum grupo por aí pesquisando a resposta pra essa e centenas de outras perguntas relacionadas ao tema com o intuito de ajudar as empresas a nos fazer querer comprar mais, mais e mais!
    Agora que você já sabe disso, não se esqueça dos vários motivos para celebrar o natal: confraternização, reunir a família, … e não apenas trocar presentes.
    Essa é minha última postagem do ano, então aproveito pra desejar um ótimo fim de ano e que 2015 seja repleto de novas descobertas!
Por: Patricia Sanae Sujii
    
Referência:
[1]Spangenberg, E. R., Grohmann, B., & Sprott, D. E. (2005). It's beginning to smell (and sound) a lot like Christmas: the interactive effects of ambient scent and music in a retail setting. Journal of Business Research, 58(11), 1583-1589.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Hohoho! Divulgação do resultado do sorteio de Natal!

Hohoho!!! 
Papai Noel chegou ao Ciência Informativa trazendo presentinhos! O nosso sorteio dos micróbios gigantes foi um sucesso e como prometido, hoje é a divulgação do resultado! Sara Mondoni ganhou duas fofurinhas (1º Lugar) e Rafael Flora Ramos (2º Lugar) ganhou uma. Por favor, os felizardos do sorteio entrem em contato inbox conosco ou pelo nosso email cienciainformativa@gmail.com para que possamos enviar por correio os presentes.




A equipe do Ciência Informativa agradece a todos pela participação e ajuda na divulgação do nosso blog! 
Um Feliz Natal para todos os nossos leitores!

Equipe Ciência Informativa


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O universo em cada um de nós

Ao final da década de 50, David Hubel e Torsten Wiesel descobriram neurônios na área de processamento visual do cérebro com preferência por determinados estímulos. Na área do cérebro onde se inicia o processamento visual a preferência é por estímulos relativamente simples: barras que atravessam o campo visual (Figura 1). Alguns neurônios preferem barras horizontais, outros preferem barras verticais e outros ainda preferem barras com uma determinada angulação intermediária. Em outras áreas de processamento visual a preferência se torna mais complexa e específica. Há neurônios que só respondem a estímulos de determinada cor e, em primatas, existem neurônios que respondem apenas a estimulação visual de faces.

Figura 1. Quando é apresentado o estímulo visual de barras verticais, os neurônios com preferência por esse tipo de estímulo se tornam significativamente mais ativos, enquanto outros neurônios não mudam muito o nível de atividade. Mas se barras horizontais são apresentadas, o inverso ocorre.
Conforme a tecnologia utilizada para registrar a atividade neuronal melhorou, cientistas utilizaram estímulos mais complexos. Técnicas como ressonância magnética funcional, registro simultâneo de vários eletrodos inseridos no cérebro ou as várias técnicas de imageamento óptico da superfície cerebral permitem a análise da atividade de um grande número de neurônios ao mesmo tempo. A combinação dessas técnicas com os estímulos chamados de “cenas naturais” possibilitou grande avanço no entendimento da rede neural envolvida na criação da percepção visual pelo cérebro.
Mas nem só de estímulos vive um neurônio sensorial. Neurônios de quase todas as partes do sistema nervoso disparam potenciais de ação mesmo sem a presença de estímulo externo. Populações de neurônios que disparam juntas fazem com que grandes áreas do cérebro tornem-se ativas espontaneamente. Por algum tempo acreditou-se que essa atividade espontânea não passava de uma aleatoriedade dos neurônios, um ruído incompreensível sem informação relevante sobre a estrutura da rede. Sabe-se hoje que isso está longe de ser verdade.
Muitos fatores podem levar um neurônio a se tornar espontaneamente ativo, e há de fato alguma aleatoriedade envolvida no processo. No entanto, conforme grandes grupos de neurônios se tornam ativos de forma simultânea, ou ao menos correlacionada, os fatores aleatórios pesam menos. Em artigo publicado na revista Nature em 2003, por exemplo, um grupo de pesquisadores demonstrou haver padrões na atividade espontânea do córtex visual que muito se assemelham aos padrões gerados por estímulos visuais (Figura 2). O nível de atividade é mais baixo, mas a estrutura é praticamente a mesma.

Figura 2. As imagens acima são padrões de atividade registrados na superfície do cérebro, na área de processamento visual. Regiões mais escuras representam áreas menos ativas, regiões mais claras são áreas com mais atividade. Quando calcularam o índice de semelhança entre padrões espontâneos e padrões estimulados, os cientistas descobriram que padrões de atividade espontânea se assemelham aos estimulados numa taxa muito mais alta do que a esperada aleatoriamente.

Alguns argumentam que é como se o cérebro estivesse a todo o momento fazendo pequenas simulações dos estímulos que estão por vir. Esta pode ser uma forma de manter o sistema nervoso preparado para responder de forma rápida e precisa quando um estímulo é apresentado. Sabemos que se apresentarmos um mesmo estímulo várias vezes a uma pessoa o sistema nervoso responderá de maneira similar a cada apresentação, mas sempre com uma pequena variação entre as apresentações. Normalmente fazemos uma média da atividade nervosa ao longo de várias apresentações para descartar essas pequenas variações. Alguns cientistas têm buscado a origem dessa variação e, aparentemente, a resposta para o problema está na atividade espontânea cerebral. Cada vez que o estímulo é apresentado o cérebro está em um estado ligeiramente diferente, o que resultará em uma ativação ligeiramente diferente do sistema nervoso.
Há muito tempo que se entende a percepção como uma construção da mente. No universo físico a luz possui comprimento de onda, as moléculas possuem estado de agitação e as forças de interação entre seus átomos geram estruturas variadas. Nossa mente traduz esses parâmetros em cor, temperatura e odor, tudo construído pelo cérebro. O estudo da atividade espontânea nos mostra que o cérebro não aguarda silenciosamente pelos estímulos do mundo externo. Ao contrário, há sempre uma expectativa, uma fraca simulação do universo em andamento. Essa simulação será modulada, reforçada em alguns pontos e inibida em outros, e é desse encontro do mundo externo com o mundo intrínseco à mente que nasce a percepção.
Por: Tiago Siebert Altavini
 ts.altavini@gmail.com

Referências
Fox, M. D., Snyder, A. Z., Vincent, J. L., & Raichle, M. E. (2007). Intrinsic fluctuations within cortical systems account for intertrial variability in human behavior. Neuron56(1), 171–84. doi:10.1016/j.neuron.2007.08.023
He, Y., Wang, J., Wang, L., Chen, Z. J., Yan, C., Yang, H., … Evans, A. C. (2009). Uncovering intrinsic modular organization of spontaneous brain activity in humans. PloS One4(4), e5226. doi:10.1371/journal.pone.0005226
Hubel, D. H., & Wiesel, T. N. (1962). Receptive fields, binocular interaction and functional architecture in the cat’s visual cortex. The Journal of Physiology160(1), 106. Retrieved from http://jp.physoc.org/content/160/1/106.full.pdf
Kenet, T., Bibitchkov, D., Tsodyks, M., Grinvald, A., & Arieli, A. (2003). Spontaneously emerging cortical representations of visual attributes. Nature425(6961), 954–6. doi:10.1038/nature02078.